Uma casa de palha, barro e pau
construída no alto do sertão
sem arroz, sem farinha , sem feijão
sem ter prato, sem papa e sem mingau
seu vigia de noite é o bacurau
passa a noite sentado na janela
no fogão não se vê uma panela
só se vê uma grelha enferrujada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Fui um dia ao sertão e visitei
uma casa de taipa construída
a parede da frente já caída
sentí tanta saudade que chorei
quis entrar nessa casa não entrei
quis falar mas me deu um nó na goela
desse filme de terror só ví a tela
na passagem da fria madrugada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Uma cama de varas sem colchão
uma toalha no chão serve de mesa
essa casa é a foto da pobreza
de um homem nascido no sertão
por lembrança deixou sobre o fogão
muita cinza e um caco de panela
um pedaço do cinto sem fivela
amarrado na porta da entrada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Quem morou nessa casa antigamente
tem história a contar do seu passado
que saía bem cedo para o roçado
e um cão farejando em sua frente
tudo isso ficou na sua mente
parecendo uma história de novela
a coruja de noite é sentinela
dessa casa que antes foi morada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Um chiado de grilo ou besouro
toda tarde se ouve na parede
encostado a um torno de armar rede
que na qual seu filho calava o choro
e o sol declinava cor de ouro
desenhando no céu uma grande tela
imitando um rapaz na passarela
despedindo de sua namorada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Toda casa de taipa é sem fartura
o seu dono não tem prazer na vida
vendo um filho chorando sem comida
sem ter para lhe dar, uma rapadura
sem legumes, sem carne e sem verdura
sem tomate, cenoura e beringela
sem presunto, sem pão, sem mortadela
sem manteiga, sem queijo e sem coalhada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Não existe no centro um candeeiro
que à noite estava sempre aceso
essa casa é um gesto de desprezo
que atingiu o seu dono verdadeiro
sem cama, sem forro e travesseiro
sem a lenha, fogão e sem tijela
sem um pano de prato, sem panela
sem ninguém "pra" morar toda fechada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Um papeiro vazio e esquecido
e junto dele, uma colher de pau
que uma mãe preparou muito mingau
para um filho de fome adormecido
pela seca seu dono foi vencido
por lembrança deixou uma sequela:
o retrato da fome vive nela
assustando até mesmo a passarada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
O seu dono era um agricultor
quando havia um ano de fartura
tinha queijo, manteiga e rapadura
tinha paz, alegria e muito amor
mas a seca cruel lhe trouxe a dor
sua vida não era mais aquela
o cavalo morreu ficou a sela
num cambito de anjico pendurada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Essa casa é de estilo muito antigo
a coberta é de palha de coqueiro
agregado com paus de marmeleiro
"pra" servir de refúgio e de abrigo
bem na porta deitado um cão amigo
que nasceu com uma mancha na costela
dois ou carrapatos na canela
que pegou pelo mato na caçada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Um suspiro, um soluço e um gemido
quem passar perto dela deve ouvir
que seu dono deixou e quis partir
"pra" morar num lugar desconhecido
passou fome e ficou bem desnutrido
precisando de algo na panela
cabisbaixo calçou uma chinela
e saiu caminhando na estrada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Não se houve o rangido da porteira
nem o galo cantar no seu puleiro
nem o ronco do porco no chiqueiro
só o grilo chiar na cumieira
o restolho de uma prateleira
que a esposa guardava pratos nela
pendurada num prego uma flanela
que com o tempo ficou bem desbotada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
No terreiro uma pedra de amolar
que de tanto usarem ficou fina
lá no quarto uma espingarda lazarina
que seu dono guardava "pra" caçar
hoje velha e não pode disparar
na coronha tem prego e arruela
pertinho da vareta uma fivela
com a tira de couro pendurada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Uma casa de taipa sem telhado
sem janela, sem porta e sem batente
quem morou nessa casa antigamente
tem história a contar do seu passado
hoje o seu dono doente e bem cansado
mal vestido e calçado com chinela
tem saudade de quando viveu nela
bem humilde, bem pobre, mas zelada
toda casa de taipa abandonada
guarda um grito de fome dentro dela
Autor: Francisco de Assis Sousa (Chico Nenen)
Brasília-DF
27 de março de 2002
Ventura
sábado, 23 de abril de 2011
O poder de manipulação da mídia
Os programas televisivos são apresentados ao público de uma forma que engessa toda a sua capacidade de pensar sobre determinado assunto. A exemplo disso, observa-se o Faustão entrevistando um participante (cobaia desse laboratório de alienação) no seu programa, cujas perguntas são elaboradas no campo dos sentimentos: o que voce sente?, o que voce acha?,o que voce viu?, do que voce gosta?, o que voce faz? Omitindo fatos da realidade, não perguntando ao entrevistado o que PENSA sobre determinado assunto, e finaliza todo esse ensaio com o jargão " esse cara ralou para chegar até aqui, ó louco meu! Pensa que é fácil? não é moleza não!" Esse bordão tem a finalidade de ocultar ou fazer o povo esquecer, do sofrimento por que ralam todo os dias bem cedo tomando ônibus lotado, enfrentando longos congestionamentos no trânsito das grandes cidades.
Texto de opinão
José Maria Ventura
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Poesia autor Manoel Nenen
Tema: Volte mãe quero te ver (de Francisco de Assis Sousa - Chico Nenen)
I
Minha mãe me deu de tudo
Do leito, a própria guarida
Me deu prazar nesta vida
Deu livro prá meu estudo
Deu coberta de veludo
Para meu corpo aquecer
Oh Deus! Como irei viver
Sem ela e tudo faltando
Dia e noite estou chorando
Volte mãe quero te ver
II
Hoje ninguém me conforta
A sua falta eu lamento
A casa do sofrimento
Abriu prá eu essa porta
A mamãe se acha morta
É triste meu padecer
Eu não posso conviver
Nesta grande solidão
Saudade no coração
Volte mãe quero te ver
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Poemas de Manoel Nenen
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Hortênsias |
Minha terra querida, eu não te esqueço
Um momento se quer na minha vida
De sua água potável, e da comida
Que me de destes outrora, eu agadeço
Hoje, ausente de ti tanto padeço
A saudade tortura e me flagela
Eu recordo a novena da capela
Que papai festejava com trabuco
Minha terra querida é Pernambuco
Tudo quanto eu gosto existe nela
Autor: Manoel Nenen
Fev/1983
O nordestino humilde do campo
Todo nordestino tem
A sua mão calejada
Pelo decorrer dos anos
No manejo da enxada
Batalha, luta e não vence
Morre e não arranja nada
Só veste roupa rasgada
Anda sempre semi nú
Alpargata de rabicho
Só feita de couro crú
Essa é a figura idêntica
Dos filhos do Pajeú
Autor: Manoel Nenen
Mocidade e Velhice
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